quarta-feira, 11 de maio de 2016

DIÁRIOS DE BICICLETA - Abertura


Estes diários registram a aventura da vida que, assim como a bicicleta, só tem sentido quando em movimento. Da cela da bicicleta farei a pauta do temas que tratarei aqui. Nesta postagem de abertura, um brinde à sabedoria de Pablo Neruda, que poeticamente interpretou a alma deste fantástico "inseto transparente". Pois que, em meio aos golpes que diariamente sofremos, só nos resta o permanente movimento.


Ia pelo caminho calorento,

O sol como um milharal em chamas

E a terra um infinito circulo caloroso com céu azul em cima, desabitado.

Passaram junto a mim as bicicletas,

Únicos insetos daquele minuto seco do verão,

Furtivas, velozes, translúcidas parecendo só movimento de ar.

Os trabalhadores e as garotas pedalavam para as fábricas,

Entregando seus olhos ao verão,

E suas cabeças ao céu,

Sentados nas asas das vertiginosas bicicletas

Que assobiavam cruzando pontes, rosais, arbustos ao meio dia.

Pensei neles à tarde,

Talvez, depois do banho, cantem, comam e bridem o amor e a vida com uma

Taça de vinho.

E, à porta, esperando, a bike imóvel porque só de movimento foi sua alma,

E ali, caída não é inseto transparente que viaja no verão,

Mas estrutura fira que sozinha recupera um corpo errante

Com a urgencia e a luz,

Ou seja, com ressurreição de cada dia.


(Pablo Neruda, 1956)